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Camila Caringe - My Blog
Malia
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Sala de edição.
_ Professor… _ Oi. Você quer me mostrar algo? _ Sim. Meu vídeo. Acho que está pronto. _ Tá bom. Vamos lá ver.
O professor sentou na minha mesa e começou a ver meu vídeo. De repente, uma vozinha do lado de fora da sala:
_ Papai! Papai! _ Só um minuto, Camila. – e, indo para a pequena, pegou-a no colo: _ Vem aqui com papai, mas não coloca a mãozinha em nada, que tá suja de bolacha.
A pequena olhou pra mim e eu pra ela. Era a mesma que estava do lado de fora da casa, desfilando com seu poncho. Reconhecemos-nos rapidamente e ela passou pro meu colo:
_ Oi – eu disse, pra quebrar o gelo. _ Oi. _ Qual é seu nome? _ Malia. _ Malia? _ Malia. _ E essa bota linda aqui, Maria? Quem te deu? Você sabe? _ Sabe. Foi a vovó. _ A vovó? _ É. Vovó. _ E essa mão babada? Crééédu. Que mão babada! Eca! _ Eu tava comendo bolacha. _ E cadê a bolacha? _ Comi. Mamãe... Cadê a mamãe?
E lá foi ela em busca da mamãe, no corredor.
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Disappointed
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“Ah… que bonitinha!”, pensei comigo. Baixinha, fofinha, cabelo de algodão doce. Chegou ao ponto de ônibus com passos curtinhos e sentou-se ereta. Cara de velhinha limpinha, sabe? Que toma banho sozinha, que come direitinho, que obedece a filha. Tinha as unhas feitas, um coque impecável e decência. Gosto muito de velhinhas que se comportam como velhinhas. É que não havia pombos ao redor, mas tenho certeza que ela jogaria pipoca pra eles e...
_ Cccc... Ccccc... rrrrrr... rrrrrrrrrrrrrrr... ptú!
Argh!
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Herdeiro
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Brotado do nordeste. Mãe briga com o pai e vai embora com o filho pra casa de parentes em cidade grande. Mas ele não se sentia um clichê. Era só alguém que não queria conhecer o pai, que não tinha muito contato com a mãe, apesar de morar com ela, e que não se dava bem com o irmão – filho de um outro ainda. Foi clichê quando o pai lhe viu as fotos das mãos de parentes e achou que se pareciam muito. Foi clichê quando disseram que o pai queria muito lhe ver, já adulto. Uns diziam que era a mãe quem não queria. Outros, que o pai não fez questão. Seria típico se as duas coisas fossem verdade, mas ele não soube bem, então deixou que passasse a oportunidade. Um belo dia lhe contaram que o pai sofrera um acidente. Em seguida, que estava muito mal. Disseram ainda que teve súbita melhora. Depois, que falecera. A mãe, de perto, nem se moveu para consolá-lo do amargo da culpa por se ter negado a ver a raiz de seus traços bem feitos, moreno, leve. Chorou sozinho, sem pai por força da morte, sem mãe por força da vida. Talvez fosse clichê do Piauí mãe não abraçar filho nem quando morre o pai.
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de Carli
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No dia de alçar vôo, as beatas tudo apareceram lá. Tinha gente saída até de dentro da TV pra ver o padre ir-se embora, levantado por mil balões de gás coloridos. Tempo de fé aquele abril, quando recorde e pastoral se juntavam na motivação do religioso. Eu mesma não fui naquele dia. Nem em outro, a bem da verdade. Eu não o conhecia, mas posso imaginar seu desespero progressivo até o fim trágico, previsível. Posso entender que não havia sequer um’alma baiana para alertá-lo de que os orixás alguma coisa, os búzios diziam, as cartas falavam. Mas eu, de intuição falha e nenhuma técnica na arte da predição, era bem capaz de dizer que atravessar o País suspenso por bexigas era mais do que um ato de ousadia e confiança no Senhor. Era uma idéia suicida. Surpreende-me, no entanto, lembrar a utopia desatinada. E há algo que agrada. Talvez porque seja humano cultivar o fantasioso. Talvez porque eu tenha cá minhas confianças quiméricas. Talvez ainda... porque seja da vida flertar com a morte e, no fundo, eu entenda. “A polícia diz que os restos mortais encontrados em Maricá, Litoral Fluminense, no início de julho são realmente do padre Adelir de Carli, desaparecido desde o dia 20 de abril (2008), quando decolou com balões de gás no Paraná. Suspenso por cerca de mil balões, Carli pretendia ficar 20 horas no ar e bater o recorde neste tipo de vôo. Além do novo índice, o padre dizia ainda que iria divulgar a Pastoral Rodoviária, de apoio a caminhoneiros. Mesmo com o céu nublado e pancadas de chuva, o religioso manteve o vôo.”
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Turning tables
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Essa vez foi como todas as outras. Piripaque, jejum, insônia, experiência de quase morte. Depois da desintoxicação, um ritual singelo. Entre os artigos de escritório da prateleira encontrei a caixa sob medida para a sua meia-dúzia-de-coisas. Asséptica, lilás, que é a cor da transmutação no mundo espiritual. Não esperei, claro, que você notasse esse cuidado, além de ter ajeitado ordenadamente seus vídeos, livros e a escova de dente no topo da pilha, como cereja do bolo ou king-kong na ponta do arranha-céu. Coloquei a escova de ladinho, pra não cair. Daí inverti com a sua foto de criança, enrosquei no fio do seu HD. Achei ali um canto e só faltava a etiqueta, com seu nome implicitando algo terrível: aqui jaz um equívoco a dois.
E nada mais se disse a respeito.
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